Uma garota alvíssima, vestida toda de preto, com maquiagem forte nos olhos, flertou com nosso grupo de amigos na boate. Ela tinha tatuagens espalhadas pelo corpo, piercing no nariz e mechas rosa no cabelo moreno. Gótica. Sem exagero nenhum, pode-se dizer que era gótica. Uma gótica bonita, de traços delicados.
Durante alguns instantes, houve a eterna expectativa: qual de nós iria conversar com ela? Para a surpresa geral, vai Escobar. Explico o motivo do espanto: estávamos em cinco amigos, e Escobar era o mais playboy da turma. O único de camisa social e cinto.
Aliás, só o fato de Escobar estar conosco naquela boate, na baixa Augusta, já era motivo de mistério. Sua balada costumava ser no Itaim, na Vila Olímpia, em casas que cobram 30 reais de entrada para a mulher e 150 para o homem. Escobar tinha um espetacular Volvo C30. Suas ex-namoradas eram belíssimas. Modelos e patricinhas da FAAP, basicamente.
Enfim. O fato é que Escobar foi conversar com a charmosa gótica e, em alguns minutos, já a estava beijando. Fomos, eu e os outros, para uma segunda pista da boate. Uma banda de rock tocava cover do Pink Floyd. Duas ou três músicas depois, aparece Escobar, sozinho.
Um de nós cede à curiosidade:
“Escuta, Escobar”, começa, “me explica um mistério. Você está sempre acompanhado de modelos, patricinhas, coisa e tal. Por que hoje escolheu uma gótica?”
Ao que ele responde, profundo:
“Essa gótica me lembrou de uma história marcante, cuja memória até hoje me persegue.”
Como havia uma história marcante, sentamo-nos numa mesinha na área externa do clube, para que a música não a atrapalhasse. E Escobar disse:
“Quando eu era moleque, digamos uns 15 anos, ganhei dos meus pais uma viagem de um mês para a Inglaterra. Por inocência, ou por capricho do destino, marquei a passagem para janeiro, no ápice do inverno europeu. Naquela época, eu não fazia idéia de que o verão no Brasil coincidia com o inverno na Europa, e vice-versa.
Cheguei em Londres num domingo cinzenta. A temperatura não estava negativa, mas duvido que ultrapassasse os quatro ou cinco graus. Fui direto do aeroporto para a casa do Sr. Osbourne e sua esposa, que seriam meus anfitriões. Um garoto mexicano também estava hospedado na casa. Aliás, devo notar que a Sra. Osbourne era muito atenciosa. Lembro-me de que ela colocava, toda noite, uma bolsa de água quente na minha cama. Quando eu deitava, a cama já estava quentinha e aconchegante. Era ótimo.
Como eu dizia, cheguei num domingo. Já no dia seguinte, às nove da manhã, eu teria a primeira aula na escola de inglês. Ela se chamava Queens, igual ao torneio de tênis. Como eu morava no mesmo bairro da escola, a alguns quarteirões de distância, não precisei acordar muito cedo. Graças a Deus, porque, como vocês sabem, odeio acordar cedo.
Segunda-feira, caminhei uns 15, 20 minutos e cheguei à Queens. A escola ficava numa casa grande e bonita, com um jardim interno cheio de plantas. Calculei, pelo seu tamanho, que houvesse uns 60 ou 80 alunos lá. Fiz o teste com o diretor. Ele me mandou para uma turma intermediária, cheia de garotas argentinas barulhentas. Assim que entrei na sala, percebi que elas olharam e que gostaram de mim. Realmente, meu cabelo loiro encaracolado sempre fez sucesso com as mulheres. Desde criança.
“NÃO SEI SE JÁ COMENTEI com vocês, mas aos 15 anos, eu era muito inexperiente com as mulheres. Tinha beijado umas poucas garotas e só. Nunca tivera algum caso mais sério; não encontrara ainda uma menina que eu gostasse de verdade.
Pois bem. No intervalo da aula, desci para o saguão da escola. Lá havia sofás, poltronas e uma cafeteria. Como não tinha amigos, comprei um chocolate quente e me sentei numa dessas poltronas, sozinho. Notei que um grupo de garotas falava em português. Fui conversar:
‘Posso me sentar com vocês? Não conheço ninguém em Londres. Cheguei ontem. ’
Elas foram muito simpáticas. E, em pouco tempo, eu já estava entrosado com os brasileiros da Queens. Éramos uns 10 ou 12. Logo vi que a escola era cheia de panelas. Brasileiros de um lado, japoneses do outro, turcos do outro. Argentinos e colombianos andavam juntos.
Modéstia à parte, eu era um dos homens mais bonitos da Queens. Percebi que duas ou três brasileiras arrastavam a asa para mim. Algumas argentinas também. Mas, ao contrário de hoje, eu não era galinha. Nem sabia o que significava ser galinha! Se eu fosse, poderia ter feito a festa. Mas não a fiz.
Gostei de duas meninas brasileiras. As duas do Rio de Janeiro, por coincidência. Seus nomes também eram parecidos. Karina e Marina. Mas tirando isso, uma era o oposto da outra. Marina era alta, extrovertida, com corpo de mulher. Tão bronzeada quanto uma carioca de novela. Falava alto e contava histórias incríveis sobre as festas que frequentava no Brasil. Já Karina era delicada, tímida e carinhosa. Tinha um longo cabelo castanho, liso, que contrastava com sua pele branquinha. Às vezes aparecia na aula de óculos. Isso a deixava com uma carinha de nerd.
Apesar das diferenças, tanto Marina quanto Karina eram muito bonitas.
“BOM, COMO EU CONTAVA, rapidamente me entrosei com os brasileiros. Na quarta-feira, fomos para um pub ali pertinho, o Harry’s. O segurança não nos queira deixar entrar, pois éramos todos menores de 21 anos. Mas, depois de muita insistência, ele acabou nos liberando.
Súbito, me encontro sentado num sofá com Karina, a sós. Olho para os lados, a procura dos outros brasileiros e de Marina. Estão todos no balcão, bebendo tequila, cerveja, ou sei lá o quê. Naquele momento, percebi que o beijo era inevitável. Sabem quando a menina fica olhando direto nos seus olhos, e ri de qualquer piada besta que você conta? Pois bem. Assim fazia Karina. Apesar da certeza do beijo, não posso negar que senti alguma ansiedade.
Afinal, tenho pavor, pânico de ser rejeitado. E vamos e venhamos: isso é comum, não? Nem todo homem tem medo da rejeição. Só os normais.
Enfim. Beijei Karina. Foi um beijo macio, suave, apaixonado. O melhor que eu, até hoje, provei. Se os anjos beijassem, aposto que seriam beijos iguais aos de Karina. Ela tinha um perfume muito gostoso também. Ficamos no sofá por horas. Só levantamos quando as luzes do pub foram acesas e o segurança veio avisar que a casa estava fechando. Pois é, na Inglaterra eles fecham tudo cedo. Meia-noite, se não me engano.
Na manhã seguinte, a caminho de escola, me bateu o desespero. Deveria eu cumprimentar Karina com um beijo na boca? Ou no rosto? Não me lembro exatamente como aconteceu. Mas o fato é que ficamos juntos também naquele dia. E no seguinte. E em mais outro. E em outro mais. Depois de uma semana, eu estava apaixonado. Pela primeira vez na vida.
“AH, COMO FORAM FELIZES aquelas semanas com Karina. Que casal apaixonado nós fomos! Passávamos o dia inteiro juntos, imersos em beijos e carinhos românticos. Comprei flores, bombons em formato de coração para ela. Nossas promessas de amor eterno eram diárias.
Sabem como percebi que estava apaixonado? Quando todos os defeitos de Karina passaram a ser virtude aos meus olhos. Seu irritante sotaque carioca soava como uma Bossa Nova; sua pequena barriga me dava vontade de mordê-la. Ainda não existia iPod naquele tempo. Então ouvíamos música juntos no CD player dela. Duas bandas se revezavam no aparelho: Coldplay e Hole. E, no velho violão da escola, eu tocava Por Enquanto para Karina.
Num fim-de-semana, viajamos para a França de trem. Eu, Karina e outros amigos da Queens. Ela tentava me arrastar para igrejas, museus, catedrais. Eu resistia bravamente. Queria ficar nos cafés, nos bares de Pigalle, curtindo a boêmia parisiense. Mas, é claro, eu sempre acabava cedendo. E assim Karina me levou para conhecer a Notre Dame, o Louvre, e umas outras tantas igrejas que mal lembro o nome. Fazer o quê.
Absorvido na minha paixão, esqueci completamente que, no fim do mês, eu voltaria para São Paulo. E Karina para o Rio de Janeiro.
Até que, certo dia, dão uma festa à fantasia na escola. Tive preguiça de comprar fantasia. Então improvisei. Vesti uma calça camuflada, fiz uma pintura de guerra embaixo dos olhos, amarrei uma faixa na cabeça. Como era magrelo, parecia um soldadinho de chumbo. Quando cheguei à festa, lá estava ela, Karina, simplesmente espetacular. Fantasiada de vampira. Com um vestido curto preto, bota alta e maquiagem pesada. Estava ainda mais branca do que já era naturalmente.
No meio da festa, Karina me chama de canto. E dá a cruel notícia: estava voltando para o Rio de Janeiro no dia seguinte. Fiquei louco, possesso. Como ela só me contava isso agora? Um dia antes de partir? Levantei a voz, bati a mão na parede. Depois a abracei e comecei a chorar. Prometi que a levaria ao aeroporto; prometi que voltaria logo ao Brasil; prometi que a visitaria toda semana no Rio de Janeiro.
E na manhã seguinte, fui buscá-la para levá-la ao aeroporto. Toco a campainha. Atende uma senhora. Pergunto por Karina. Ela responde:
‘Já foi embora.’
No meu desespero, digo que é impossível, que há algum erro. Afinal, nós tínhamos combinado de ir juntos. Mas a senhora é firme e irredutível: ‘Karina já foi para o aeroporto’. Fico com vontade de matar, com vontade de morrer. Então a senhora diz:
‘É o Escobar, né? Ela deixou uma carta para você.’
Trêmulo, eu pego a carta. Agradeço a senhora e vou para um Starbucks ali na esquina. Como Karina pôde fazer uma coisa dessas comigo?, penso. Num misto de fúria e agonia, comecei a ler a carta. Ao terminá-la, meu choro era tão apocalíptico que uma garçonete veio perguntar se estava tudo bem.
“BOM, ACHO QUE FICOU CLARO o que estava escrito na carta, não? Era o fim. Karina dizia que nunca amara alguém tanto quanto amara a mim na vida. E que, por vivermos em cidades diferentes, ela não aguentaria as despedidas constantes. Seria uma tristeza intensa demais. Por isso, preferia acabar com todo o sofrimento de uma só vez, num adeus final e definitivo.
Pediu-me dois favores. Primeiro, que eu não a procurasse no Brasil. Segundo, que eu sempre me lembrasse dela quando ouvisse a alguma Bossa Nova. Junto à carta, Karina deixou uma foto de nós dois, tirada na festa à fantasia. E, escrito no verso, em tinta vermelha, numa letra de mão suave e bonita, O soldado e a vampira.
Até hoje, cumpri as duas promessas. Nunca mais revi Karina.
Então não se espantem se, às vezes, eu aparecer acompanhado de alguma menina com cara de vampira. Isso vai acontecer de vez em quando.”