A escada (conto)

02/02/2010 por Pedro Nogueira

Acordou numa escada mal iluminada. Sua cabeça doía. O corpo estava pesado.

“Que sonho besta é esse?”

Botou a mão no bolso e tirou o celular. 3h45. Duas chamadas perdidas. Percebeu que aquilo não era um sonho. Onde já se viu? Celular com chamada perdida num sonho?

“Será que fui assaltado?”

Não. A carteira estava intacta. A nota de R$20, o cartão de débito, o de crédito. Todos em seus respectivos lugares.

“Uma surra, então?”

Passou a mão no rosto, à procura de sangue. Nada.

Pegou o celular. Sábado, 11 de janeiro, 3h47. Duas chamadas perdidas. Número desconhecido. Ligou de volta. Deu caixa-postal.

“Merda.”

Levantou cambaleando. Quase caiu. Além de sentir a cabeça doendo e o corpo pesado, suas pernas estavam dormentes.

“Será tráfico de órgão, puta merda?”

Desesperado, abriu a camisa e procurou por alguma cicatriz. Não havia nenhuma. Só a velha tatuagem da phoenix.

“Que escada é essa, porra?”

Súbito, ele ouve passos. Aparece um vulto que, logo depois, assume a forma de um pato gigante. Toma-se de desespero:

“Patolino?!”

O pato responde:

“Quem?”

“O que você tá fazendo aqui, pato miserável? Quer apanhar?”

“Quê?”

Numa fúria repentina, joga o celular no peito do pato. Este grita:

“Ai.”

“Some daqui, Patolino. Vai embora!”

Ameaçou jogar também o sapato. Mas não foi preciso. Assustado, o pato desceu a escada correndo.

Então mudou de idéia:

“Volta aqui, pato covarde! Corre, não! Vou te quebrar o bico.”

E bateu com as duas mãos no peito:

“Eu sou o rei da escada, porra. Sou rei!”

Churrasqueira

Assim que Toledo chegou à churrasqueira, um amigo veio perguntar:

“Achou o Nelsinho?”

“Tá na escada.”

Ficou intrigado:

“Fazendo o quê?”

“O corno tomou um ácido e tá achando que eu sou o Patolino! Acredita que ele jogou o celular no meu peito e me botou para correr?”

Súbito, Toledo recebe uma sapatada nas costas. Vira-se na certeza do óbvio: lá está Nelsinho.

“Achou que ia fugir de mim, pato cretino?”

Toledo se livrou do segundo sapato por uma simples razão: Nelsinho preferiu arremessá-lo contra o Batman. Sempre tivera uma birra com o homem morcego.

Velho Oeste

02/02/2010 por Pedro Nogueira

A imagem que se tem do pôquer no Velho Oeste é a da selvageria total, um bacanal de cartas e revólveres regado a rum e pólvora. Sem regras nem leis.

“Trinca de reis.”

“Trinca de ases.”

“Tá louco? Você só tem dois ases.”

O sujeito põe o facão na mesa e aponta:

“Esse aqui é o terceiro. Passa as fichas.”

Um temido pistoleiro do Mississipi, Philip McHellmuth, orgulhava-se de nunca ter perdido um pote com as suas cartas da sorte: par de seis. Cartas que, às vezes, assumiam a forma das duas Colt 45 que McHellmuth levava no colete, carregadas com seis balas cada.

“É o suficiente?”

“Absoluto! Absoluto!”

Era tamanha a roubalheira que, certo dia, decidiram adotá-la como regra oficial do jogo. Se o jogador conseguisse intimidar os parceiros com apostas, insultos ou ameaças e fazê-los fugir da mão, seria declarado o ganhador das fichas. A jogada foi batizada de bluff, uma homenagem ao seu criador, Bluffalo Brill. É até irônico: anos mais tarde, Bluffalo seria abatido a tiros numa emboscada no Doyle’s Saloon. Tentou passar um blefe e encontrou três valetes armados.

Nesse contexto de bagunça generalizada que o xerife Joe Lefors foi encarregado de desenvolver um código de leis e regras universais para botar ordem na jogatina do oeste americano. Uma espécie de constituição das cartas. Há que diga que, depois do Bill of Rights, esse foi o segundo documento mais importante da história do país. Muitos discordam – dizem que foi o primeiro. Dizia ele:

1º Artigo: Na mesa, fica proibido o culto a qualquer religião. Saloon não é retiro espiritual. A liberdade de expressão também será vetada. Saloon não é clube do livro.

2º Artigo: O jogador não deverá portar qualquer tipo de arma, seja de fogo ou de lâmina. A segurança é responsabilidade única do crupiê, a autoridade máxima e absoluta da mesa.

3º Artigo: Em hipótese alguma o jogador poderá apropriar-se das cartas dos outros, sob penalidade de linchamento e forca. A mesma regra vale para as fichas. Sob idêntica penalidade.

Quando dizem que Brasília é “terra de ninguém”, como os saloons do Velho Oeste, está se cometendo uma hedionda injustiça. Realmente, os pistoleiros do Vale do Mississipi não foram grandes exemplos de elegância e de virtuosidade. Mas a possibilidade do linchamento e da forca colocou um freio em suas ambições trapaceiras. Porque, quando um facão vale mais do que uma trinca, e um par de Colts 45 derrota até Royal, algum xerife precisa botar ordem na bagunça.

De vira-lata a estrela: como a década de 2000 transformou a identidade do jogador de pôquer

23/01/2010 por Pedro Nogueira

(Artigo publicado na revista CardPlayer Brasil de janeiro)

No começo de 2003, entro na casa da minha namorada e o sogro me chama de canto: “Cuidado, tenho um tio que perdeu duas fazendas na mesa de pôquer.” Eu era novo na família e acabara de contar que jogava cartas. Dou um sorriso, sem pressa de responder. Ele insiste, ar profético nos lábios: “É um jogo perigoso. Leva muita gente à falência.” O sermão continua – e vou ouvindo calado. Até que tomo a dianteira. Onde está o tio falido? Não há notícias dele. Qual é o nome? Ninguém se lembra, pois é um parente distante. E o homem que ganhou as duas fazendas? Sabe-se lá quem é.

Se você joga pôquer há mais de cinco anos, certamente conhece o célebre, o infalível, o incurável discurso do “tio viciado”. Falei do sublime “tio” e já lhe acrescento outra característica vital: tal qual um Bin Laden, esconde-se com habilidade assombrosa. É um ilustre desconhecido. Antes da década de 2000, o “tio perdedor” era personagem certo numa conversa sobre pôquer. Ninguém sabia ao certo seu nome, idade ou paradeiro. Mas lá estava ele, o “tio azarado”, com a dramática história da falência. Sua presença espectral e massiva dava uma identidade de vira-lata a todos os jogadores de pôquer. Sim, não havia exceções: perdedor ou ganhador, o jogador tinha, dentro de si, traços gritantes do “tio falido”. Éramos todos dilapidadores crônicos de fazendas.

Eis que a secular existência do “tio perdedor” chega ao fim. (A idade exata era um mistério, mas é sabido que passava dos três dígitos). Muitas pessoas não se deram conta do trágico acontecimento – a crudelíssima morte do “tio jogador”. Realmente, o velório foi discreto, sem a presença da mídia ou de massas populares. Mas é fato: ele se foi. Não resistiu ao pôquer on-line, às transmissões da ESPN, a Moneymaker, ao Texas Hold’em. A década de 2000 foi seu algoz; como se fosse uma agressiva tuberculose bilateral.

Engana-se, porém, quem pensa que as conversas de pôquer, com a recente morte do “tio viciado”, ficaram órfãs de personagens. Surpreendam-se: ele deixou herdeiros. O leitor, com sua rigorosa curiosidade, há de perguntar: “Quem? Quem?” Respondo: as estrelas do Texas Hold’em. Estas, ao contrário do “tio falido”, são palpáveis, concretas, visíveis – e, acima de tudo, vitoriosas.

Lembro-me de um ótimo perfil de Daniel Negreanu que li no jornal americano The New York Times, em 2005. Quando o repórter comenta sobre a exposição televisiva que a World Series of Poker (WSOP) e o World Poker Tour (WPT) trouxeram aos jogadores, diz Negreanu: “Somos os novos rock stars”. E são. Todo mundo conhece o Texas Hold’em, sabe as regras do Texas Hold’em, quer jogar o Texas Hold’em. Até mesmo as esquinas e os botecos conversam, entre si, sobre os potes milionários disputados por Tom Dwan, Phil Ivey e Patrick Antonius na internet e no High Stakes Poker. (Nas minhas crônicas, as esquinas e os botecos falam.)

Resistem algumas almas conservadoras que, saudosas do “tio falido”, usam o velho argumento da sorte para atacar o pôquer. “É um jogo de azar”, dizem. Ok. A sorte, realmente, influencia no pôquer. Mas sem um mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem comer um pêssego – morre engasgado com o caroço. O que dizer, então, do tiebreak no tênis? Ou da disputa de pênaltis no futebol?

Todos os funerais são tristes – e o do “tio azarado” não foge à regra. Até mesmo a morte de um cruel gângster ou de um cossaco russo desperta um mínimo de comoção. Admito: sentirei falta de ouvir a história do “tio pato”. Mas nós, jogadores de pôquer, devemos agradecer à década de 2000. Ela finalmente nos libertou da identidade de vira-latas, da fama de dilapidadores de fazenda. Hoje, todo o jogador tem um pouco de Doyle Brunson, de “durrrr”, de Phil Hellmuth dentro de si. Seja um ganhador ou um perdedor, somos todos estrelas. Essa é a verdade.

Karina (conto)

23/01/2010 por Pedro Nogueira

Uma garota alvíssima, vestida toda de preto, com maquiagem forte nos olhos, flertou com nosso grupo de amigos na boate. Ela tinha tatuagens espalhadas pelo corpo, piercing no nariz e mechas rosa no cabelo moreno. Gótica. Sem exagero nenhum, pode-se dizer que era gótica. Uma gótica bonita, de traços delicados.

Durante alguns instantes, houve a eterna expectativa: qual de nós iria conversar com ela? Para a surpresa geral, vai Escobar. Explico o motivo do espanto: estávamos em cinco amigos, e Escobar era o mais playboy da turma. O único de camisa social e cinto.

Aliás, só o fato de Escobar estar conosco naquela boate, na baixa Augusta, já era motivo de mistério. Sua balada costumava ser no Itaim, na Vila Olímpia, em casas que cobram 30 reais de entrada para a mulher e 150 para o homem. Escobar tinha um espetacular Volvo C30. Suas ex-namoradas eram belíssimas. Modelos e patricinhas da FAAP, basicamente.

Enfim. O fato é que Escobar foi conversar com a charmosa gótica e, em alguns minutos, já a estava beijando. Fomos, eu e os outros, para uma segunda pista da boate. Uma banda de rock tocava cover do Pink Floyd. Duas ou três músicas depois, aparece Escobar, sozinho.

Um de nós cede à curiosidade:

“Escuta, Escobar”, começa, “me explica um mistério. Você está sempre acompanhado de modelos, patricinhas, coisa e tal. Por que hoje escolheu uma gótica?”

Ao que ele responde, profundo:

“Essa gótica me lembrou de uma história marcante, cuja memória até hoje me persegue.”

Como havia uma história marcante, sentamo-nos numa mesinha na área externa do clube, para que a música não a atrapalhasse. E Escobar disse:

“Quando eu era moleque, digamos uns 15 anos, ganhei dos meus pais uma viagem de um mês para a Inglaterra. Por inocência, ou por capricho do destino, marquei a passagem para janeiro, no ápice do inverno europeu. Naquela época, eu não fazia idéia de que o verão no Brasil coincidia com o inverno na Europa, e vice-versa.

Cheguei em Londres num domingo cinzenta. A temperatura não estava negativa, mas duvido que ultrapassasse os quatro ou cinco graus. Fui direto do aeroporto para a casa do Sr. Osbourne e sua esposa, que seriam meus anfitriões. Um garoto mexicano também estava hospedado na casa. Aliás, devo notar que a Sra. Osbourne era muito atenciosa. Lembro-me de que ela colocava, toda noite, uma bolsa de água quente na minha cama. Quando eu deitava, a cama já estava quentinha e aconchegante. Era ótimo.

Como eu dizia, cheguei num domingo. Já no dia seguinte, às nove da manhã, eu teria a primeira aula na escola de inglês. Ela se chamava Queens, igual ao torneio de tênis. Como eu morava no mesmo bairro da escola, a alguns quarteirões de distância, não precisei acordar muito cedo. Graças a Deus, porque, como vocês sabem, odeio acordar cedo.

Segunda-feira, caminhei uns 15, 20 minutos e cheguei à Queens. A escola ficava numa casa grande e bonita, com um jardim interno cheio de plantas. Calculei, pelo seu tamanho, que houvesse uns 60 ou 80 alunos lá. Fiz o teste com o diretor. Ele me mandou para uma turma intermediária, cheia de garotas argentinas barulhentas. Assim que entrei na sala, percebi que elas olharam e que gostaram de mim. Realmente, meu cabelo loiro encaracolado sempre fez sucesso com as mulheres. Desde criança.

“NÃO SEI SE JÁ COMENTEI com vocês, mas aos 15 anos, eu era muito inexperiente com as mulheres. Tinha beijado umas poucas garotas e só. Nunca tivera algum caso mais sério; não encontrara ainda uma menina que eu gostasse de verdade.

Pois bem. No intervalo da aula, desci para o saguão da escola. Lá havia sofás, poltronas e uma cafeteria. Como não tinha amigos, comprei um chocolate quente e me sentei numa dessas poltronas, sozinho. Notei que um grupo de garotas falava em português. Fui conversar:

‘Posso me sentar com vocês? Não conheço ninguém em Londres. Cheguei ontem. ’

Elas foram muito simpáticas. E, em pouco tempo, eu já estava entrosado com os brasileiros da Queens. Éramos uns 10 ou 12. Logo vi que a escola era cheia de panelas. Brasileiros de um lado, japoneses do outro, turcos do outro. Argentinos e colombianos andavam juntos.

Modéstia à parte, eu era um dos homens mais bonitos da Queens. Percebi que duas ou três brasileiras arrastavam a asa para mim. Algumas argentinas também. Mas, ao contrário de hoje, eu não era galinha. Nem sabia o que significava ser galinha! Se eu fosse, poderia ter feito a festa. Mas não a fiz.

Gostei de duas meninas brasileiras. As duas do Rio de Janeiro, por coincidência. Seus nomes também eram parecidos. Karina e Marina. Mas tirando isso, uma era o oposto da outra. Marina era alta, extrovertida, com corpo de mulher. Tão bronzeada quanto uma carioca de novela. Falava alto e contava histórias incríveis sobre as festas que frequentava no Brasil. Já Karina era delicada, tímida e carinhosa. Tinha um longo cabelo castanho, liso, que contrastava com sua pele branquinha. Às vezes aparecia na aula de óculos. Isso a deixava com uma carinha de nerd.

Apesar das diferenças, tanto Marina quanto Karina eram muito bonitas.

“BOM, COMO EU CONTAVA, rapidamente me entrosei com os brasileiros. Na quarta-feira, fomos para um pub ali pertinho, o Harry’s. O segurança não nos queira deixar entrar, pois éramos todos menores de 21 anos. Mas, depois de muita insistência, ele acabou nos liberando.

Súbito, me encontro sentado num sofá com Karina, a sós. Olho para os lados, a procura dos outros brasileiros e de Marina. Estão todos no balcão, bebendo tequila, cerveja, ou sei lá o quê. Naquele momento, percebi que o beijo era inevitável. Sabem quando a menina fica olhando direto nos seus olhos, e ri de qualquer piada besta que você conta? Pois bem. Assim fazia Karina. Apesar da certeza do beijo, não posso negar que senti alguma ansiedade.

Afinal, tenho pavor, pânico de ser rejeitado. E vamos e venhamos: isso é comum, não? Nem todo homem tem medo da rejeição. Só os normais.

Enfim. Beijei Karina. Foi um beijo macio, suave, apaixonado. O melhor que eu, até hoje, provei. Se os anjos beijassem, aposto que seriam beijos iguais aos de Karina. Ela tinha um perfume muito gostoso também. Ficamos no sofá por horas. Só levantamos quando as luzes do pub foram acesas e o segurança veio avisar que a casa estava fechando. Pois é, na Inglaterra eles fecham tudo cedo. Meia-noite, se não me engano.

Na manhã seguinte, a caminho de escola, me bateu o desespero. Deveria eu cumprimentar Karina com um beijo na boca? Ou no rosto? Não me lembro exatamente como aconteceu. Mas o fato é que ficamos juntos também naquele dia. E no seguinte. E em mais outro. E em outro mais. Depois de uma semana, eu estava apaixonado. Pela primeira vez na vida.

“AH, COMO FORAM FELIZES aquelas semanas com Karina. Que casal apaixonado nós fomos! Passávamos o dia inteiro juntos, imersos em beijos e carinhos românticos. Comprei flores, bombons em formato de coração para ela. Nossas promessas de amor eterno eram diárias.

Sabem como percebi que estava apaixonado? Quando todos os defeitos de Karina passaram a ser virtude aos meus olhos. Seu irritante sotaque carioca soava como uma Bossa Nova; sua pequena barriga me dava vontade de mordê-la. Ainda não existia iPod naquele tempo. Então ouvíamos música juntos no CD player dela. Duas bandas se revezavam no aparelho: Coldplay e Hole. E, no velho violão da escola, eu tocava Por Enquanto para Karina.

Num fim-de-semana, viajamos para a França de trem. Eu, Karina e outros amigos da Queens. Ela tentava me arrastar para igrejas, museus, catedrais. Eu resistia bravamente. Queria ficar nos cafés, nos bares de Pigalle, curtindo a boêmia parisiense. Mas, é claro, eu sempre acabava cedendo. E assim Karina me levou para conhecer a Notre Dame, o Louvre, e umas outras tantas igrejas que mal lembro o nome. Fazer o quê.

Absorvido na minha paixão, esqueci completamente que, no fim do mês, eu voltaria para São Paulo. E Karina para o Rio de Janeiro.

Até que, certo dia, dão uma festa à fantasia na escola. Tive preguiça de comprar fantasia. Então improvisei. Vesti uma calça camuflada, fiz uma pintura de guerra embaixo dos olhos, amarrei uma faixa na cabeça. Como era magrelo, parecia um soldadinho de chumbo. Quando cheguei à festa, lá estava ela, Karina, simplesmente espetacular. Fantasiada de vampira. Com um vestido curto preto, bota alta e maquiagem pesada. Estava ainda mais branca do que já era naturalmente.

No meio da festa, Karina me chama de canto. E dá a cruel notícia: estava voltando para o Rio de Janeiro no dia seguinte. Fiquei louco, possesso. Como ela só me contava isso agora? Um dia antes de partir? Levantei a voz, bati a mão na parede. Depois a abracei e comecei a chorar. Prometi que a levaria ao aeroporto; prometi que voltaria logo ao Brasil; prometi que a visitaria toda semana no Rio de Janeiro.

E na manhã seguinte, fui buscá-la para levá-la ao aeroporto. Toco a campainha. Atende uma senhora. Pergunto por Karina. Ela responde:

‘Já foi embora.’

No meu desespero, digo que é impossível, que há algum erro. Afinal, nós tínhamos combinado de ir juntos. Mas a senhora é firme e irredutível: ‘Karina já foi para o aeroporto’. Fico com vontade de matar, com vontade de morrer. Então a senhora diz:

‘É o Escobar, né? Ela deixou uma carta para você.’

Trêmulo, eu pego a carta. Agradeço a senhora e vou para um Starbucks ali na esquina. Como Karina pôde fazer uma coisa dessas comigo?, penso. Num misto de fúria e agonia, comecei a ler a carta. Ao terminá-la, meu choro era tão apocalíptico que uma garçonete veio perguntar se estava tudo bem.

“BOM, ACHO QUE FICOU CLARO o que estava escrito na carta, não? Era o fim. Karina dizia que nunca amara alguém tanto quanto amara a mim na vida. E que, por vivermos em cidades diferentes, ela não aguentaria as despedidas constantes. Seria uma tristeza intensa demais. Por isso, preferia acabar com todo o sofrimento de uma só vez, num adeus final e definitivo.

Pediu-me dois favores. Primeiro, que eu não a procurasse no Brasil. Segundo, que eu sempre me lembrasse dela quando ouvisse a alguma Bossa Nova. Junto à carta, Karina deixou uma foto de nós dois, tirada na festa à fantasia. E, escrito no verso, em tinta vermelha, numa letra de mão suave e bonita, O soldado e a vampira.

Até hoje, cumpri as duas promessas. Nunca mais revi Karina.

Então não se espantem se, às vezes, eu aparecer acompanhado de alguma menina com cara de vampira. Isso vai acontecer de vez em quando.”

Cabelo de samurai (conto)

18/01/2010 por Pedro Nogueira

Admirou-se no espelho do elevador, como um narciso de camisa pólo. E comentou para si mesmo, na excitação do reflexo:

“Pois sim!”

Depois de anos usando o mesmíssimo corte de cabelo (longo, com franja de lado e cuidadosamente despenteado), Juanito tomou a audaciosa decisão – mudar de penteado. Como assistira ao Clã das Adagas Voadoras alguns dias antes, sua influência veio do Oriente hollywoodiano. Escolheu o atrevido modelo dos samurais cinematográficos: fios longos e rabo-de-cavalo no topo da cabeça.

Já que seu cabelo estava comprido, bastou roubar um elástico da irmã e pôr o corajoso plano em prática. Feitos os ajustes, lá foi Juanito encontrar os amigos no bar, de penteado inédito. Mas, antes, não pôde deixar de se admirar no espelho e de fazer o fatídico comentário:

“Pois sim!”

No bar, quando chegou à mesa dos amigos, houve um espanto geral e indiscutível:

“Jesus!”, disse um.

“Diabo!”, disse outro.

“Será o santo?”, disse outro mais.

Durante uma hora maciça, Juanito foi bombardeado com piadas e comentários provocativos de todos os cantos da mesa. Até que chega ao seu lado uma magnífica morena, com um digníssimo porte de novela da Globo.  Dá um sorriso grande, aberto, quase escandaloso e diz:

“Seu cabelo lembra o penteado da minha yorkshire.”

Rubro de vergonha, Juanito quase desatou a chorar. Eis que, súbito, a morena segura o seu rosto entre as duas mãos – e dá nele um beijo daqueles! Foi uma surpresa unânime. Os amigos, a garçonete e o próprio rapaz não entenderam nada do que tinha acontecido. Assim que largou os lábios de Juanito, a garota segredou-lhe: “Eu amo aquela cachorra. Amo de paixão.”

E o puxou pela gola da camisa, para mais um beijo.

O tapa (conto)

15/01/2010 por Pedro Nogueira

Quando Marquito soube do boato, foi um espanto tremendo:

“O quê? A Carlinha anda dizendo que ergui a mão para ela?”

O amigo e mensageiro, na sua polidez exemplar, limitou-se a responder com uma sintética confirmação:

“Sim, senhor.”

Realmente, Carlinha espalhava por aí a dita história. “Quase me bateu, quase me bateu!”, ela confidenciava, sem a menor discrição, para qualquer orelha que encontrasse. O causo difundiu-se rapidamente, nas mais distintas versões. Alguns diziam até mesmo que, no furor do ciúme, Marquito dera uma lambada na pobre menina.

Enquanto o amigo lhe contava os detalhes do boato, Marquito desesperou-se. Ergueu as mãos aos céus e defendeu-se da injusta acusação, como se algum anjo o estivesse ouvindo e julgando: “Nunca levantei a mão para uma mulher. Nunca!” E bateu com a mão direito no peito, com orgulho de seu caráter impecável: “Sou um gentleman! Um lorde inglês! Honestíssimo!”

E o amigo respondia, com humildade comovente: “Pois sim, pois sim. Uma injustiça.”

De fato, até o surgimento do boato, Marquito possuia fama de digníssimo cavalheiro; sujeito de comportamento limpo e indiscutível. Tinha a delicadeza de um poeta; uma atitude moral comparável, sem exagero nem risos, à de um aristocrata britânico. Mas no Brasil, quando surge um rumor, o acusado é culpado até que se prove o contrário. Então, para tirar a história a claro, lá foi Marquito ter com Carlinha.

Foi um susto quando ela abriu a porta do apartamento:

“Marquito!”

Nem mesmo convidou-o a entrar; assim que o viu, Carlinha caiu de joelhos no chão. Abraçou as pernas do outro e desfez-se em lágrimas de culpa:

“Me perdoa, me perdoa…”, e suspirava, num remorso tocante: “Sou uma mentirosa! Uma mitomaníaca! Uma desgraçada!”

Pego de surpresa pela reação da garota, Marquito ficou estático, sem palavras. Quase em choque.

“Sou uma falsa, uma miserável! Me perdoa, me perdoa…” Enquanto se auto-indulgenciava, Carlinha chorava barbaridade, a ponto de molhar os sapatos de Marquito. O choro durou quase dois minutos, ao fim dos quais Carlinha, num gesto ágil e acrobático, levantou-se rapidamente. Sua expressão de remorso dera lugar a uma outra, de raiva. Segurou Marquito pelos ombros e gritou:

“Sou uma mentirosa! Uma miserável!” E pediu o absurdo, o impraticável para Marquito: “Mereço um tapa. É isso que mereço, um bom tapa. Me dá um tapa!”

O rapaz, assustado, não sabia o que fazer. Tentou contê-la:

“Toma juízo, mulher! Eu não bato em mulher e você sabe disso. Sossega!”

Mas Carlinha estava convencida de que merecia tal corretivo:

“Me bate, Marquito! Eu mereço, me bate! Sou uma mentirosa. Anda logo, faz esse favor para mim! Me bate! Anda, vai!”

Ao mesmo tempo em que pedia a punição, Carlinha esperneava e se descabelava. Durante um bom tempo o casal discutiu, até que Marquito perdeu a paciência: Plaft. Deu-lhe o tão desejada tapa. O hediondo, inconfundível, honesto barulho do estralo foi a única e escassa testemunha da cena. Então Carlinha abraçou Marquito e tornou a chorar, numa gratidão eterna e profunda: “Obrigada… Obrigada…”

No que Marquito, sério, respondeu: “Por você eu faço tudo, Carlnha. Tudo!” E deu-lhe outra lambada daquelas.

O Buquê (conto)

12/01/2010 por Pedro Nogueira

Com aquela mesma velocidade selvagem com que começara, o romance entre Binho e Joy acabou. Não durou dois meses o namoro. Foi vítima da incompatibilidade fatal: a beleza mútua. Tanto Joy como Binho eram de uma perfeição assombrosa, tão plásticos quanto uma bailarina de Degas.

E, como é sabido, não há casais bonitos sem finais trágicos. Nada mais ofensivo, ou por outra, nada mais humilhante para um belo par de amantes do que o final feliz. Neste capítulo de “finais dramáticos”, Joy e Binho tinham bons motivos para se orgulhar: quando acabou o namoro, vasos quebraram-se e tapas estralaram. Ouviram-se gritos de ódio recíproco e votos de maldição eterna por todo um quarteirão. Uma despedida à altura da beleza de ambos.

Outro detalhe vital, indiscutível dos belos casais é a recaída. Nunca um “fim” é, de fato, um “fim” para eles. Não foi uma surpresa, portanto, quando, sete meses depois da furiosa briga, Binho liga para Joy:

“Quero te ver.”

A garota não hesita:

“Onde e quando?”

Marcaram um jantar para a quinta-feira, no japonês, às 20h.

O reencontro

No horário combinado, passa Binho para apanhar Joy. Prestes a entrar no carro, ela depara com um enorme, histérico buquê de flores no banco.

“Quantas vezes já te disse que não gosto de flores?”, rosna Joy.

“E quem disse que são para você?”, responde o outro, com delicada ironia.

Ela entra na brincadeira: “Ainda bem que são para outra menina,” e acrescenta, “porque prefiro tomar um tapa na cara a receber flores.”

Binho: “Se você quiser, posso te dar isso também…”

“Ah!”, exclama ela. “Agora você também bate em mulher?”

“Que eu me lembre, foi você quem me deu um tapa quando terminamos.”

A discussão

Ficou claro, neste momento, que a brincadeira fora longe demais. Mas nenhum dos dois recuou – e teve início a apocalíptica discussão. Joy defende-se da acusação do tapa:

“Te bati, sim. E com razão! Ou você não se lembra da mensagem daquela vagabunda que encontrei no seu celular?”

Binho sai do carro e balança os braços ao céu:

“Você é maluca! Você é maluca!” E jura: “A mensagem era de uma amiga minha!”

Ela: “Além de canalha, é covarde. Não tem nem a coragem de admitir!”

Ele: “Admitir o quê, sua louca? Não há nada para admitir!”

Joy exaltou-se neste momento: “Sou louca, então? Sou?”

E Binho: “Louca, sim! Louca, maníaca, psicopata.”

“Então vem cá.” Tira da bolsa um spray de pimenta e descarrega no rosto do ex-namorado. O grito e a queda de Binho foram teatrais. Enquanto ele agonizava no chão, Joy virou as costas e foi embora tranquilamente. Ardendo em dor maciça, contorcendo-se no chão, com a pimenta a queimar-lhe os olhos e a garganta, Binho gemia: “Que fim glorioso! Que fim glorioso!” E sorria feliz, com a pouca força que lhe restava.

(Binho e Joy estão também no conto Flores)

Sorte no jogo, sorte no amor

06/01/2010 por Pedro Nogueira

(Artigo publicado na revista CardPlayer Brasil de dezembro)

A piada é clássica – de tanto que já foi repetida, chega a ser vital, indispensável numa conversa sobre jogos. Você está falando para os amigos sobre uma certa sessão de pôquer, na qual as cartas lhe foram extremamente generosas. Os pares viravam trincas, as pedidas tornavam-se fato e as fichas não paravam de entrar no seu bolso. Não há escapatória: cedo ou tarde, alguém virá com o comentário profético. “Cuidado, hein! Sorte no jogo, azar no amor.” Para não ser desagradável, você sorri. Dá, também, um tapinha amigável nas costas dele, como se tivesse achado graça na brincadeira. Mas a verdade é que você já tinha ouvido a piada. Três vezes. Só naquela semana.

De tão usada, a expressão tornou-se uma espécie de “verdade universal”. É como se existisse um equilíbrio divino e inexplicável que defendesse os maus jogadores do fracasso completo e absoluto.

Mas fica a questão: rivers milagrosos e potes graúdos significam que sua namorada vai te largar no próximo fim-de-semana? Para ficar com aquele coitado que tomou cinco bad beats seguidos num mesmo dia? Como dizia o Duque de Wellington, quem acredita nisso, acredita em tudo. Poucas máximas criadas pelo homem são tão imprecisas e tão falsas quanto essa. Repito: é um ditado de credibilidade abominável.

Lembro-me de uma partida de cash game que joguei, alguns meses atrás, no Casino at the Empire, em Londres, o mesmo cassino que sediou o World Series of Poker Europe. Era sábado à noite, e eu estava sentado numa mesa de 1-2 libras. Um dos jogadores se levanta e vai embora, abrindo uma vaga na mesa. Para a surpresa – e alegria – de todos os parceiros, senta-se no lugar dele uma garota linda, de vinte e poucos anos. Cabelo loiro escorrido, olhos claros e alta. Seu nome era Rachel.

Sou tímido por natureza, e não costumo socializar muito enquanto jogo. Naquela noite, porém, uma maré de sorte implacável estava do meu lado, e eu me sentia extremamente confiante. Poucas vezes na vida fiz tantos jogos fortes – e puxei tantas fichas – quanto nesta sessão. Metade dos jogadores da mesa disputavam a atenção de Rachel, com comentários que variavam desde a mão anterior até o Big Ben. Fiz, então, algo que surpreendeu até a mim mesmo: levantei-me, fui até ela, pedi o seu telefone e combinamos de sair no dia seguinte. Eu nunca fizera isso antes. E, provavelmente, nunca voltarei a fazer.

Fiz a introdução acima para chegar à seguinte conclusão: sorte no jogo traz sorte no amor. Assim como o azar num atrai o azar noutro. “Ninguém te ama”, escreveu o ex-beatle John Lennon, “quando você está para baixo e por fora.” Quando se está com azar, esta é a cruel consequência: todos param de te amar. Uma série maciça de bad beats abala, em maior ou menor a escala, a confiança de qualquer jogador. (A não ser que você se chame Patrick Antonius e seus nervos sejam à prova de balas.) E é muito provável que essa má fase nas cartas tenha reflexos no seu dia-a-dia. O azar no jogo nos deixa irritado, com a auto-estima baixa e com um sentimento de impotência. Que mulher se sentiria atraída por um homem assim?

Por outro lado, “todos te amam”, cantava Lennon na mesma canção, “quando você está flutuando a seis palmos do chão”. Bastam alguns flushes e full houses em sequência para que a nossa confiança eleve-se a níveis altíssimos, astronômicos, sobrenaturais. Nasce, assim, uma auto-estima napoleônica. Afinal, quem consegue ganhar um pote com apenas três outs, consegue tudo. Uma ótima amiga me disse há algum tempo: “Homem confiante é tudo. Se você não é, aprenda a fingir.” Então se você é um azarado crônico (ou um jogador de talento duvidoso), não há motivo para desespero. Finja que é sortudo. Assim, pelo menos no amor você poderá se sair bem.

A versão do Diabo – parte I

21/12/2009 por Pedro Nogueira

Eu, o Diabo, sou uma vítima.

O leitor, com a sua fé exemplar e incorruptível, há de perguntar: “Mas como você, o Pai da Mentira, aquele que desvirtua até o santo, poderia ser uma vítima?” Eu disse “vítima” e já acrescento: sou uma vítima milenar, alvo de uma intriga de proporções sobrenaturais. A maior conspiração de todos os universos! Nos últimos dois mil anos, fui usado como bode expiatório pela humanidade. Desde um magnífico tsunami até uma crise de asma, a responsabilidade sempre sobra para mim. Sou um culpado crônico.

Mas cansei desse fardo.

Por isso vim lhes contar a verdade, senhores. Podem protestar, xingar, negar, espernear à vontade. Estou acostumado com isso – não é nada fácil arrastar uma alma aqui para o meu Abismo Negro. Sou cheio de cicatrizes, traumas e fraturas. Ao contrário de Deus, eu trabalho sozinho. Não tenho o reforço dos anjos, dos santos e de toda a gangue do Vaticano para ajudar na administração de Casa. Cada alma que busco é uma aventura digna de uma Odisséia. Imaginem como é difícil dizer a um Che Guevara, ou a um Lampião, que ele deve me acompanhar, numa jornada sem volta, até as Trevas. Já levei mais facada e mais tiro do que qualquer soldado de trincheira!

E as mulheres então? Ufa! Já me deram tanto joelhaço no abdômen que, para agüentar tamanha pancadaria, precisei desenvolver uma barriga de pugilista. Isso sem contar, é claro, as unhados no rosto e os puxões no chifre. Esse último, especificamente, dói barbaridade.

Como eu dizia, sou uma vítima do Senhor. Vocês conhecem a história do turista que comprou o Cristo Redentor de um vigarista? Foi assim que aconteceu comigo. Caí no conto do vigário. Homem inteligente aquele inglês, George Orwell, que disse que “a história é escrita pelos vencedores”. Eu perdi – então vocês só conhecem a versão contada pela minha Nêmesis Divina. Saibam que os fatos não se desenrolaram exatamente como Ele conta.

Decidi, então, sentar-me hoje ao computador para redigir minha versão da História. Será difícil escrever com uma eloqüência shakespeariana; não é fácil se concentrar com tanta alma chorando e reclamando no meu ouvido. São uns ingratos! Numa hora, o problema é o calor. Na outra, é a escuridão. Ou, ainda, aquela caravana de advogados que chegou carregada desta vez. A alma de uma senhora de 80 anos veio ter comigo ontem. “Não quero ficar alojada ao lado de um promotor público”, disse ela. Expliquei-lhe o problema da superlotação, mas garanti que faria o possível para arranjar-lhe outro quarto. Sabem o que ela respondeu? “Depressa, corno.” Que fiz para merecer tal ofensa?

Tento governar a minha Casa da melhor forma possível. Instalei até alguns ventiladores, acreditem! Mas meu orçamento é curto, não dá para oferecer luxo aos inquilinos. Não tenho o dízimo católico para ajudar nas finanças. E, quando arrumo algum extra, o Homem lá de cima vem com as taxas! Sabem como Ele divide a verba espiritual? Pois contarei. Toda segunda-feira nos reunimos no Paraíso. De um lado de mesa, eu, o Solitário. Do outro, o Senhor, com seus 12 assessores, o filho e alguns estagiários angelicais. Começa a partilha. “Um para você”, diz Ele, “dois para Mim.” Depois: “Um para você, três para Mim. Um para você, 14 para Mim.” Como é sabido, os números são infinitos. Então dá para imaginar até onde vai a conta…

Se eu protesto, sou invejoso; se peço mais dinheiro, sou ganancioso. Que alternativa tenho? Saio do paraíso com meus poucos trocados para sustentar todo um Inferno – e milhões de almas ingratas e choronas. Que vida, que vida!

Li, num jornal velho, que a Bíblia é o livro mais vendido do planeta. Pois decidi: fato contra fato, acusação contra acusação, vou escrever a minha versão da História. Quem sabe, se eu conseguir emplacar um best-seller, posso até trazer eletricidade para as minhas Trevas. Porque depender eternamente do gato que puxei do Céu, não dá. Francamente.

A discussão (conto)

20/12/2009 por Pedro Nogueira

Quando a menina o chamou de “ignorante”, Toledo desatou a gargalhar. Indignada, Nicole sentiu-se ofendidíssima com a risada sarcástica do outro. Então completou:

“Ignorante e estúpido!”

Ele desafiou: “Eu ou você?”

E ela: “Você não lê revista de fofoca, não sabe de nada. Eu li na Caras que o cachê da Angelina Jolie é de bilhões. Ouviu bem? Bilhões!”

Num pulo raivoso, Nicole levantou-se do sofá e apontou o dedo para Toledo. “Só porque você é jornalista, acha que sabe de tudo. Mas está errado dessa vez.”

Com delicada ironia, aquele movimento escuso ao canto da boca, Toledo respondeu. “Quem me dera ser tão inteligente quanto você.” Pausou antes de continuar. “Afinal, a ignorância é uma benção.” Riu sozinho, satisfeito pela deliciosa situação em que se encontrava! Toledo era famoso por gostar de uma boa discussão. E quanto encontrava alguém ferozmente convencido de uma larga besteira, divertia-se torturante o outro lentamente. Só depois de uma boa sessão de gritos, palavrões e escândalos, Toledo provava por 1+1, ou 3×3, o seu ponto.

Nicole já estava trêmula de ódio. Seu olhar era mais hostil do que os de um cossaco ucraniano – dizem que estes eram ainda piores dos que os russos. Franzindo o nariz, xingou Toledo outra vez: “Ignorante, estúpido e ridículo.”

Toledo começou, então, o terror psicológico. “Ok. Vamos lá. Você me disse que a Angelina Jolie ganha bilhões por filme, com b maiúsculo?”

Nicole: “Claro que bilhões! Meu ex-namorado fazia Publicidade na USP, me ensinou tudo sobre show business. Quanto você acha que a Madonna ganha numa turnê? Bilhões também.”

Animadíssimo, ele continua: “Quantos filmes você acha que a Angelina Jolie fez nos últimos cinco anos?”

Distraída, ela vai em direção à armadilha: “Sei lá. Uns 20 ou 30.”

Sem pressa em prosseguir, Toledo acende um cigarro. Dá três longos tragos e calca as brasas no fundo do cinzeiro. “Então a mulher deve ter uns 100 bilhões na conta?”

“Até mais!”, retruca Nicole, numa animação histérica.

Toledo sorri ao ouvir a resposta. Sutil, ele indaga: “As suas revistas de fofoca falam, também, sobre quem é o homem mais rico do mundo?”

Acuada, Nicole tenta se esquivar: “Que diferença isso faz?”

“Você sabe ou não sabe?”

“Não.”

“Te conto. Ele se chama Bill Gates e tem 40 bilhões de dólares. Agora me diz: como uma atriz de Hollywood vai ter o triplo da fortuna do homem mais rico do mundo?”

Derrotada, Nicole permite-se um comentário derradeiro: “Você é ridículo”. E vai se sentar numa poltrona solitária no outro canto da sala. Deitado no sofá branco, Toledo apenas observa a cena, feliz pela boa discussão que tivera. Passam-se 15 minutos e a garota continua quietinha na poltrona, num silêncio sepulcral. Toledo, preocupado, vai até lá. Ao chegar ao lado de Nicole, vê que ela está chorando – um choro contido e discreto, mas muito molhado. Ele, então, a abraça. Nicole, no início, debateu-se nos braços que tentavam acamá-la. Mas logo cedeu. Os dois deram um beijo teatral.

Toledo era um touro da retórica, imbatível numa discussão. Ele gostava de pensar que, se encontrasse Sócrates numa esquina, faria o filósofo grego aposentar a sua dialética milenar. Esquecera-se apenas de uma regra capital, uma responsável por muitas brigas, destruições e guerras ao longo dos séculos: mulher de TPM sempre tem razão.