
Explicou à namorada, num esforço admirável, por que não poderia ir ao cinema sábado.
“Vou descer para litoral com os caras.”
“Que caras?”
“Os mesmos de sempre: o Albino, o Bombinha, o Fred…”
Julinha não gostou nada da idéia.
“E não posso ir junto?”
Pegou na mão dela e baixou a voz.
“Veja bem”, começou. “Queremos fazer uma viagem como nos velhos tempos. Só os moleques. Para colocar a conversa em dia, tirar um sarro…”
Foi interrompido pela outra.
“E cair na balada?”
Zacarias quase fez um escândalo.
“Nunca! Nunca!”
“Não mesmo?”
Ele prometeu.
“É coisa besta, entende? Inocente. Só para matar a saudade.” Limpa um pigarro. “Domingo estou de volta, ok? Daí, a gente vai no cinema.”
Sábado
Não desceu para o litoral, como combinara com Julinha.
Na verdade, Zacarias foi num double date: a namorada do Bombinha estava recebendo uma prima de Porto Alegre. Segundo o amigo, a menina era um “espetáculo à altura do Cirque du Soleil”. Como uma cadelinha, chamava-se Baby. Claro, era apelido. Mas assim ela se apresentava para todo mundo.
E a noite foi, de fato, incrível.
Começaram no sushi, depois foram ao samba rock – e terminaram a noite num after no apartamento de Zacarias.
Baby era linda. Absolutamente linda. Usava um vestido branco, com laço. Quando Zacarias o tirou, sentiu como se estivesse abrindo um presente de Natal.
De manhã, Baby foi embora para Porto Alegre.
Zacarias tomou uma ducha, comeu uma pizza velha, passou perfume. Às duas, foi buscar Julinha, para levá-la ao cinema. No caminho, ia elaborando, mentalmente, a mentira. Mas, como veremos a seguir, preparou a história mal.
Saia justa
Ao chegar na casa da namorada, Zacarias foi de um cinismo exemplar.
“Oi, amor. Senti sua falta na praia.”
Ela fez a pergunta inocente – mas comprometedora.
“Você veio direto?”
Pego de surpresa, quase engasgou. Optou pelo “sim”.
“Sim, sim.”
“Sozinho?”
Desta vez, foi de “não”.
“Não. O Bombinha voltou comigo.”
Mas Julinha era esperta como uma raposa.
“Cadê a mala?”
Zacarias olhou para o banco de trás, na esperança de encontrar uma mochila. Nada.
“Diabo! Esqueci na praia.”
Ela tentou o blefe.
“É só pedir para o Bombinha trazer depois.”
Como um pato bêbado, Zacarias caiu direitinho.
“Boa ideia…”
Assim que terminou a frase, percebeu o deslize hediondo. Se o Bombinha voltara com ele, como poderia trazer a sua mala esquecidade mais tarde? “Merda!”, pensou.
Seguiu-se uma briga de proporções catastróficas.
Desabafo
Tomou uma bota de Julinha, para resumir a história.
Quando foi desabafar com o Bombinha, recebeu aquela bronca.
“Porra, Zacá!”, disse o outro. “Você não conhece a regra básica?”
Balançou os ombros, sem resposta. Bombinha continuou.
“Jamais diga uma mentira que não possa provar.” Pausa e completa. “Milôr Fernandes, cara. Isso é sabedoria.”
Zacarias concordou, lacônico.
“Pois é, pois é…”
E tomou um tapa na orelha do amigo.
Etiquetas: Conto, Jamais diga uma mentira que não possa provar, mantira, Milôr Fernandes, relacionamento, traição
27/04/2010 ás 3:37 |
Podemos acrescentar algo na sábia frase de Millôr:
“Jamais diga uma mentira que não possa provar… principalmente a uma mulher!”
Mas valeu a pena, afinal:
“Baby era linda. Absolutamente linda. Usava um vestido branco, com laço (…)”.
Belo conto, Pedro!
Abs, Robson.
28/04/2010 ás 15:27 |
nada de novo sobre a face da terra
28/04/2010 ás 16:05 |
Ué… fiz um comentário e não apareceu… será que está retido?
Testando, 1, 2, 3
29/04/2010 ás 13:17 |
Agradeçamos ao Millôr, pela sabedoria partilhada.
E também ao anfitrião da casa, que redigiu tão belo conto!
Congrat’s, my friend
29/04/2010 ás 19:47
Estranho, o seu primeiro comentário ficou no anti-spam! Vai entender…
Tenho um amigo que contava mentiras imensas para a namorada — e depois passava horas ensaiando a história com os amigos, para ninguém derrapar.
29/04/2010 ás 10:38 |
“Jamais diga uma mentira que não possa provar.”
Sábio Millor …