Bateu o telefone para o amigo.
“Marcão, preciso da tua ajuda.”
O outro pressentiu a encrenca.
“Manda a bomba, Dieguito.”
“Falei para a minha ex-namorada que eu viajei contigo no feriado. Se ela perguntar alguma coisa, você confirma, ok?”
Ficou confuso.
“Tá ficando besta? O que vai ganhar mentindo para a ex? Vocês não estão mais juntos.”
Dieguito explicou.
“Acontece que ela viajou com as amigas para a praia. E eu lá vou admitir que, enquanto ela estava no litoral, fiquei em São Paulo, fazendo nada?”
“Qual é a diferença? Ela já te teu uma bota, mesmo.”
Foi curto e direto.
“Vai me ajudar ou não?”
“Tá bom, tá bom…”
A história
Dieguito recomeçou.
“Então, ouve bem.”
“Como assim? Tem mais?”
Irritou-se.
“Claro que tem! Mentira boa é mentira elaborada. Ouve com atenção, para não ter perigo de dar problema, sim?”
Marcão já estava se arrependendo de ter aceitado o papel na trama.
“Nós saimos de São Paulo na quinta-feira à noite”, começou. “No seu carro. Fomos para a Baleia, na casa de um amigo seu da faculdade. Como o trânsito estava punk, chegamos cansados e fomos dormir. Estávamos em sete pessoas na casa. Todo mundo da sua facul. Na sexta, pegamos balada no Melancia’s. Você mandou muito, pegou três mulheres! Eu peguei só uma, mas era a mais bonita de todas. Moreninha de olhos azuis! Voltamos lá pelas 4h, porque um dos seus amigos deu PT. O viado vomitou no carro, tentou brigar com o segurança, fez o diabo. No dia seguinte, fomos para Camburi pegar onda. Você tomou um caldo, mas nada sério. À noite, fomos ao Melancia’s de novo. Dessa vez, você zerou. Eu fiquei com a mesma moreninha da noite anterior. Ficamos lá até o amanhecer. Na volta do Melancia’s, caímos direto no mar, sem dormir. Só dormimos lá pelas 14h. Finalmente, voltamos para São Paulo de madrugada, para evitar o rush do trânsito. Entendeu?”
Ficou em silêncio Marcão.
Dieguito continua.
“Ah, sim! Eu disse a ela, também, que nós vamos viajar no próximo fim-de-semana. Posso te contar o roteiro?”
Depois de um longo silêncio, o amigo respondeu.
“Você precisa de um psicólogo, Dieguito.”
E desligou o telefone na cara outro.
30/04/2010 ás 12:29 |
Pedrão,
Não só para responder ao último comentário por aqui, mas também para falar desse novo texto, vai lá: rapaz, tu tens talento mesmo. Falo com autoridade, pois, como lhe disse, já li muitos contos de escritores não conhecidos e poucos (sério) tiveram a qualidade e a exatidão dos seus. Além da fluência verbal exatíssima, assim como o extremo manejo dos temas, você pegou a forma do micro-conto como ele deve ser: coagulado. A forma de divisões me lembra Nelson, mas com a diferença de que ele, muitas vezes, separava psicologias; você separa tramas. E com estilo. Estilo, camarada, estilo! Muito bom.
E, mais uma vez, lhe aconselho dar uma lida na Piauí e na Bravo! (inteiras; não precisa ser só na parte de contos, pois são boas).
Crônicas de futebol. Rapaz… Eu nunca gostei de futebol; não como todo bom brasileiro gosta, embora fosse vascaíno. Até que li “À Sombra das Chuteiras Imortais” e aquilo me mudou inteiramente. O futebol é a nossa luta de gladiadores.
Li pouquíssima coisa do Mario Filho, mas, sem dúvida, é o pai da história de nosso futebol. Ele praticamente moldou tudo o que está aí. Não é à toa que o Maracanã leva o seu nome.
O Armando eu li mais. Principalmente pela verve poética acentuada, já que foi o melhor amigo do Thiago de Mello (único que tive a chance de conhecer pessoalmente), que era melhor amigo do Zé Lins do Rego. A amizade de um e de outro é comovente. Transparece em vários textos de ambos. Mas, particularmente, acho o Nelson imbatível. Armando é incrível, mas, embora tente dar largos passos, ele joga mais a luz no indivíduo. Nelson é mais pluralista e visceral. Mas é só uma opinião. Os dois são fantásticos.
Abração buddy!
01/05/2010 ás 17:32 |
“O futebol é a nossa luta de gladiadores.”
Lol. Adorei essa! Realmente, o Nelson tinha uma habilidade impressionante para escrever sobre futebol. É um texto lírico, dramático. Parece a narrativa de uma guerra! A Piauí e a Bravo não são revistas que costumo ler. Mas as comprarei, nesse fim-de-semana, já que você indicou tão animado! Depois te digo o que achei.
Abração
30/04/2010 ás 14:01 |
Assino embaixo, com firma reconhecida, o comentário do Lennon!
Pedro, noto uma especialidade por aqui: “contos”.
Fabulosamente bem escritos e formulados… parabéns, amigo!
Sobre a trama, nunca tive um amigo assim, mas se tivesse, certamente iria mandá-lo aos píncaros
Se bem que para articular uma boa mentira, é necessário que se atente aos detalhes…
Abraços!
01/05/2010 ás 17:35 |
Fala, Robson!
O duro de contar mentiras elaboradas é lembrar os detalhes depois! Fica difícil sustentar.
Por isso, tento contar apenas mentiras pequenas! Lol.
Abs!
01/05/2010 ás 21:04 |
Pedrão,
Espero (mesmo) que goste das revistas. Muita gente critica a Bravo! por vários motivos, mas é inegável que é a única publicação nacional de cultura que realmente tem pegada. A Piauí é mais variada, tem muitos colaboradores e gosta do lado alternativo. Tô sempre encontrando ótimos textos nela. (O que me atrai também é a crença no texto; são enormes). Mas a parte que mais gosto é a “Esquinas”, com micro-reportagens sempre curiosas. Não ouso dizer que essa revista fez história.
Assino embaixo, em cima e do lado o que dissestes do Nelson e, só por esses papos, estou relendo a biografia dele feita pelo Ruy Castro. Creio que já tenhas lido. É fantástica, não?
Agora, se me dão licença, vou ler alguns contos novamente.
Abs!
01/05/2010 ás 21:09 |
Filosofia de botequim: o Darcy Ribeiro defende em “O Povo Brasileiro” que o Brasil é uma nova Roma, uma coisa inteiramente nova, já que, com a miscigenação, não somos iguais a nenhum outro povo do mundo.
Ele leva a questão pelo lado antropológico e sociológico, claro, mas, pegando a deixa, lembrei da frase que você ressaltou, Pedro: “O futebol é a nossa luta de gladiadores”.
A Grécia precisava das Olimpíadas; os romanos das lutas. O homem moderno agregou esses dois espíritos nos esportes. Deve existir algum livro-ensaio sobre essa nossa necessidade inconsciente de espetáculos grandiosos, que sempre envolvem luta e vitória.