
“Seu garçom”, disse Maneco, “faça-me o favor de trazer um cafezinho, sim?”
“Puro?”, respondeu o outro.
“Uma média. E um pão na chapa. Com manteiga à beça.”
“Sim, senhor.”
O garçom mal saíra da mesa – e Maneco já fazia um sinal com o braço esquerdo, pedindo para ele voltar.
“Dá para fechar a persiana daquela janela, por gentileza? Esse sol está de matar.”
“Claro, claro.”
“Olha”, continuou, antes que o garçom deixasse a mesa, “aproveita e pergunta àquele freguês ali sobre o resultado do futebol.”
“Perdão?”, exclamou o garçom, surpreso.
“Isso mesmo”, confirmou Maneco, “o placar do Corinthians. Perdi o jogo.”
***
Maneco chama novamente o garçom.
“Sim?”
“Peça ao seu patrão”, disse Maneco, “papel e caneta. Preciso fazer algumas anotações.”
“Papel e caneta?”, repetiu o garçom, sem entender nada.
“Isso, isso.”
Que sujeito mais peculiar!, pensou o garçom. De onde aquela peça tinha saído?
“E faça-me outra gentileza”, continuou Maneco. “Fila um cigarrinho para mim com o sujeito do balcão.”
Intrigadíssimo, o garçom atendeu os pedidos esquisitos de Maneco. Ao voltar para a mesa – com papel, caneta e o cigarro filado –, Maneco já tinha outra demanda.
“Há alguma banca de jornais aqui por perto?”
“Ali na esquina.”
“Diga ao jornaleiro que me empreste uma revista, um cinzeiro e um isqueiro.” Pausa e continua, grave: “Você faria essa delicadeza para mim, amigo?”
Admirado, o garçom coçou o cavanhaque! Cigarro, revista, cinzeiro. Afinal, quem era aquele maluco com todos esses pedidos estranhos? Mas há de se notar: apesar de doido, Maneco era de um charme e de uma simpatia devastadora. Não dava para dizer “não” a ele.
***
“Seu garçom”, voltou a pedir Maneco, “telefone a 743-3222. Ordene ao seu Moacir que me mando um guarda-chuva aqui no nosso escritório.”
“Quê?”, perguntou o garçom. Os pedidos de Maneco estavam ficando cada vez mais doidos!
“Seu Moacir, no 743-3222. Esqueci meu celular, entende? É para me mandar um guarda-chuva.”
Tentou ligar, mas ninguém atendeu. Voltou à mesa de Maneco, com a conta do bar. Ao ver a fatura, Maneco baixa a voz para ele.
“Seu garçom, me empreste algum dinheiro.”
“Como?”
“Eu deixei o meu com o bicheiro. Tive um palpite ruim…”
“Aí o senhor quer de mais!”, objetou o garçom. “Dinheiro?”
“Faça-me uma última gentileza, então”, pediu Maneco. “Diga ao seu patrão para pendurar a despesa no cabide ali em frente, sim? Volto essa semana para acertar.”
E foi andando para a porta do bar, num passo firme e confiante.
Conto inspirado na música “Conversa de Botequim“, escrita por Noel Rosa e Vadico, imortalizada na voz do sambista Moreira da Silva
Etiquetas: conversa de botequim, Moreira da Silva
23/06/2010 ás 1:44 |
Adoro a simplicidade de seus contos!
Pena que demora pra postar!
23/06/2010 ás 2:10 |
Oi, R. Td bom?
Desculpa a demora para atualizar o blog! O último mês foi bem corrido para mim (trabalhos da faculdade, semana de prova, jogos universitários e freelas). Tentarei postar, pelo menos, dois contos por semana a partir de agora.
E obrigado pelo comentário!
Grande abraço.
23/06/2010 ás 4:15 |
[...] Apenas um foca « Conversa de botequim (conto) [...]
08/07/2010 ás 2:37 |
Que cara folgado! Devia tomar uma surra